“Memória a curto prazo”, por José Luís Peixoto

jose_luis_peixotoPerdemos a capacidade de explicar às gerações mais novas como era antes. Podemos iniciar essa tentativa mas, ao fim de minutos, ou nos confundimos e começamos a divergir, ou eles se desinteressam e começam a escutar música de elevador dentro da cabeça, ou talvez escutem aquele ruído estático de quando os canais de televisão não emitiam programas durante vinte e quatro horas por dia, aquela imagem de grão cinzento que quase esquecemos também.

É normal que os mais jovens deixem de nos prestar atenção, é sempre assim quando alguém começa a falar uma língua que não entendemos. Raramente nos sentimos tão sozinhos como num jantar de polacos. Também é normal que nos falte coerência e articulação, fomos soterrados pelo tempo.

Parecia controlável, era incontrolável.

Hoje, os telemóveis são pequenas extensões do mundo ou, com mais probabilidade, de nós próprios. Há realidades e paisagens que apenas existem na internet, mergulhamos nelas. Com o telemóvel na mão, de repente, deixamos de ser um corpo com vontade e propósito, passamos a ser um objecto que está ali, um obstáculo com volume e textura, mas cuja existência está noutro lugar qualquer. Há muito que deixou de ser notícia a imagem de toda a gente nos transportes públicos a ver o telemóvel, toda a gente na sala de espera a ver o telemóvel.

Read More »

Plataforma Capazes – Texto#7

ana-ribeiro

“Despida de mim”

Esta é a história da Lili:

São dez da manhã e acabo de chegar. Antes de ir para o trabalho venho sempre ver a Lili. É a minha irmã mais velha. Aos quarenta e poucos anos, a vida decidiu pô-la à prova transformando a sua alma em algo oco e vazio. Roubando-lhe memórias e recordações.

Tudo começou, há um ano. A Lili começou a esquecer-se espontaneamente das coisas: umas vezes das chaves de casa, outras vezes das chaves do carro e noutras vezes ainda, a carteira dos documentos. Depois foram nomes de pessoas e até as tarefas do dia-a-dia que ela fazia mecanica e rotinamente. Era raro ela esquecer-se do que quer que fosse, mesmo a mais pequena e mínima coisa. Até ela começar a arrumar objectos nos sítios mais improváveis como se de repente ela tivesse desaprendido e esquecido o verdadeiro sentido de organização.
Na verdade, no imediato, não quisemos dar demasiada importância à situação, colocando as responsabilidades em cima do elevado volume de trabalho que ela ia tendo e que aumentava de dia para dia. Eu até costumava gozar com ela, dizendo-lhe constantemente, que muito provavelmente, todos aqueles esquecimentos, que ela tinha vindo a ter, poderiam advir do seu fetiche por todo o tipo de queijos. E o ditado diz que: quem come muito queijo, depressa e facilmente se esquece do mais forte desejo. Não imaginando a gravidade da situação. No entanto, as perdas de memória da minha irmã foram acentuando-se cada vez mais e eu decidi convencê-la a ir ao médico. Não foi nada fácil porque a Lili detestava ir a médicos, mas com paciência e muita persistência, consegui.
Já não achava nada normais aquelas consecutivas e avultadas perdas de memória e os abruptos esquecimentos. Senti que a Lili já não era a mesma pessoa.

Read More »

[EscreVivendo] “Nome de código: Liberdade”

20638230_1652766471408444_5518582139462348749_n
Sentada nesta secretária cinzenta, desbotada e velha, com a luz do Sol – vinda da única janela que conheço desde há dois anos – a assumir a forma de vários fragmentos. Pego na caneta lascada e já quase sem tinta e começo a escrever. Escrevo à liberdade, termo que não faz parte da minha existência nem do meu reportório, há dois anos que esta breve divisão: simplória, rasteira e desprovida de sentimentos, é a minha casa e o meu parco conhecimento de liberdade.

Liberdade sem amor. Liberdade sem poder ter qualquer tipo de conceito sobre o que é amar, porque é outro termo do qual estou privada e que tudo fizeram para que não fizesse parte do meu imaginário e do meu vocabulário. Cresci sem saber o que é realmente o amor. O amor de uma família, o amor dos amigos, o amor de uma alma gémea. Infelizmente, a única pessoa que mais me amou, foi aquela que menos o conseguiu demonstrar; para ele: amor era girar tudo à sua volta, era uma vida de sobressaltos e de escravidão. Era levar o amor de alguém por becos sem saída. Liberdade é poder amar.

Liberdade é ter direito a ser criança e a viver a infância. Liberdade é ter direito a brincar e a ter medos. Liberdade é sermos capazes de conseguir sobreviver ao mundo, quando o mundo mostra ser grande demais para nós (pelo menos para mim…)

Read More »

[Resenha] “Estou nua e agora?” – Francisco Salgueiro

502x

Sinopse:

Alex, uma nova-iorquina, vive uma vida perfeita: acabou o curso e tem um emprego garantido. Está prestes a cumprir os sonhos que desenharam para ela. Mas um desgosto de amor leva-a a viajar pelo mundo. Precisa de se conhecer melhor e ultrapassar os seus medos. Da Tailândia ao Brasil, da Austrália a Marrocos, faz Couchsurfing dormindo em colchões, beliches, camas limpas, camas sujas, parques públicos – até em minha casa, em Lisboa. Nudismo, algum sexo, ilhas paradisíacas, jantares românticos, protestos de rua, festivais no deserto, um encontro com Nelson Mandela, mulheres que disparam bolas de ping pong das suas zonas íntimas – tudo isto faz parte desta história real passada nos sete continentes, ao longo de um ano, que representa tudo aquilo que gostaríamos de fazer.
Há pessoas que cometem erros por se acomodarem e outras que cometem erros por tentarem. A Alex preferiu errar tentando. E vocês?

Read More »